De novo, De Melo, o gênio.
"O politicamente correto usa a morfologia para enfeitar expressões que julga depreciar certas diferenças. Mas o que pretende de fato? Florear superficialmente as palavras, para manter no substrato a estrutura das distinções sociais. Substituir o “negro” pelo “afro-brasileiro” consola com a falsa noção de ação positiva e igualdade. Só assim apascenta os daltônicos lexicógrafos ao ocultar a causa da diferença para manter (repito) intocadas as distinções, as quais subjazem no cimento das relações sociais. Assim, troca-se um quilo por mil gramas, e nada acontece. “Xampu para cabelos indisciplinados” é o auge cômico a que chegamos. Na certa atingiremos o formalismo pernóstico do francês falado na corte dos reis, que legou ao idioma tantas delicadas artificialidades, ou, para ser mais claro: tantas singelas tapas com luva de pelica. Tais não me toques verbais condensaram-se em tamanha massa crítica de bufonarias de salão que foram necessárias gerações de percucientes moralistas (Rochefoucauld, Laclos, Fontenelle, etc.) para indicar o quanto de rancor, cinismo, castração, mesquinharia, sordidez, desespero e niilismo se ocultava debaixo de tanta veadagem sintática. Meu temor é que o Brasil não seja capaz de produzir tantos talentos denunciadores quanto o foi a França dos moralistas. Mas indico a obra do Mirisola como uma esperança."
