Monday October 30 2006

Precious illusions

Em seus sonhos a sensação de leveza era maior, e de agonia também, como se uma corda o puxasse sempre para o lado sombrio da força, como se a queda vertiginosa de um abismo inexpugnável se alinhavasse à sombra de seus sapatos, à curvatura de suas costas, do mesmo tamanho de sua covardia. A existência se limitava à corda que mais curta ficava, à dor que mais latejante se tornava, ao medo que mais incontrolável, assumia o controle. Não era sua culpa que o temor fosse maior que o desejo, a culpa era daquelas carolas católicas, que ensinam ser pecaminosa a xoxota, como se elas, nunca em vida, tivessem sentido a própria vulva envolver a glande num ato de consolidação de proporções bíblicas, chamado comumente de sexo. Eu não chamo de sexo, sexo é sacanagem, a procriação é que é foda, é uma foda completa, fode o pau, o bolso, a mente e o coração e, como sempre, numa foda tem o esforço e o prazer, num jato ejaculatório de sensações cósmicas e elétricas, que chama-se orgasmo, mas eu não chamo orgasmo, orgasmo é um mito, eu chamo vida, a vida é um jato de sensações aleatórias, que unidas num interesse comum, assumem diversos nomes, sejam eles sacros ou hereges.
Em seus sonhos a sensação de tristeza era maior, como se um buraco se fizesse no chão, a intervalos e distâncias desconhecidas, podendo lhe apanhar em pleno passo, ou pior, num momento de descontração muscular, ainda que involuntária, pois a vida não espera, uns chamam chamado, outros destino, eu chamo intersecção, em coincidências não creio, em providências eu posso, a fé me abate e me consola com a mesma firmeza de uma palmatória em sabatina errada, pois só se tem uma chance, a minha eu uso agora, o que será, será, se não for, que fosse, a vida é uma só, tem-se fé, pulmões cancerosos e cancerígenos, sarcoma e metástase, medo não é a fraqueza, é a fortaleza, o limite que separa o dinossauro do ser humano, muito urbano pro meu gosto e, assim como eu, o campo não seduz, tem seu charme indetectável, agente que é da punição divina sobre as queimações e azias cerebrais do homem, esse bicho que ao andar destrói e ao cair corrói.
Em meus sonhos a vida é imensa, cheia de lições e cheio de habeas corpus que sou, não as aprendo, pois a beleza não é a apreensão, é a demolição, a queda vertiginosa pra usar um clichê cretino, o que me atrai é a chuva, a tempestade, os raios, os relâmpagos, o trovão, uma thunderstorm, não uma brainstorm que não me serve pra picas, uma thunderstorm é a conversa de Deus com o ímpio, uma conversa entremeada por arrotos de maná e gritos de agonia, é a raça humana em sua mais pura acepção, é a cortina de ferro que abriga seios flácidos, jorrando leite a quem quer mamar, mas eu não quero, a idade já me veio, o que curto é o bico e não a ordenha, a vida é assim, cheia de idas e vindas e numa dessas nós podemos nos encontrar, você e eu, que nunca em vida nos esbarramos, que nunca em morte nos encontraremos e nunca nesses meios termos iremos mesmo colidir, nem iremos nos beijar, o beijo é coisa de gente herege, é coisa de carolas pecaminosas, que já não sentem as palpitações de suas grutas, e afogam seu tesão em cera e crucifixo, pedindo e rezando pra que os padres adentrem seus cubículos em duplo sentido e lhes dêem um sentido à vida, vida que deixam escapar de suas mãos com um soluço abafado e um gemido incomunicável. E, nos sonhos, as flamas a tudo abarcam, para que o mundo se acabe em fumaça.

5 Comments »

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  1. Tá tudo mudado. Você tá escrevendo de verdade. E lindo, super lindo, “sadio”, textos limpos. (nem tô falando de palvrão).

    Saudades.

    Comment by Simy — Monday October 30 2006 @ 20:44 pm

  2. Tudo bem .É o seu ponto de vista .Mas não concordo.Não foram as mulheres que fizeram as leis e os costumes, as religiões. Não foram as mulheres que criaram o estupro,a valorização da virgindade feminina, as regras da cópula , as guerras, a miséria o tipo de domínio. Se fossem as mulheres que mandassem o mundo poderia ser mais igualitário, menos violento , menos desigual. Mataram , castraram , aprisionaram, agora não venham jogar a culpa nos seus ombros.Aliás CULPA é criação masculina , judaico-cristã e a falocracia como coisa boa e correta também.Se o homens vissem a mulher como um todo e não uma buceta a ser punida porque é dali que sai a vida nova, o novo, o ser humano, não haveria tantos crimes contra ela no passado e nos dias de hoje.Para determinadas culturas a buceta da mulher é tão sagrada que não pode sentir nada mais do que a dor do parto. E para outros homens é o lugar de veneração porque lhes dá prazer. Prefiro aqueles que se masturbam ou metem em qualquer buraco que aparece.Pelo menos estes talvez considerem a mulher igual a eles política, humana e divinamente.E por final, a proibição milenar à mullher de ter prazer é tamanha que o homem não percebeu que hoje em dia, poucos anos mesmo dentro da história da civilização, o prazer não está em movimentos pélvicos mas nas contrações do prazer.Tenho pena.Um homem que tem uma mulher livre sabe disso.

    Mas…Magui, quem foi que disse que o texto é contra as mulheres? Acho que só você entendeu assim.

    Comment by Blogue da Magui — Tuesday October 31 2006 @ 9:54 am

  3. Muito bom! Lindo texto, muito bom mesmo, parece que escreveu com o coração, com alma… Beijos

    Comment by sandrinha — Tuesday October 31 2006 @ 11:54 am

  4. Muito do caralho seu post! Não é mesmo sobre mulher é sobre suas concepções!

    Man, eu vou bem. Dormi mal, estou com um problema de pele no pau, mas já fui ao médico e ele diz que tem remédio, que é por causa de um outro remédio, e por aí vai. Como não podia foder, fui chupado até a vida, como você diz no post…

    E o lance de Sum Paolo?

    Comment by Cão Babão, apreciando! — Tuesday October 31 2006 @ 14:57 pm

  5. Nossa, adorei isso. Tu eh fodao. Excelente.

    Comment by Andrea N. — Tuesday October 31 2006 @ 17:20 pm

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