Uma das vantagens de ser solteiro nesse mundo é que não me decepciono com o amor. Melhor dizendo, com as pessoas que sentem o amor. Não me sinto pequeno, inválido, um peso morto, um pedaço de carne podre. Não ando preocupado, não meço as palavras, os pensamentos e as ações. Não me sinto culpado por sentir desejo, não sinto tesão pelas tabelas, não sacaneio, não traio, não minto, não destruo. Claro, se eu fosse um namorado sério eu não precisaria dessas desculpas, mas eu sou um machista incorrigível e, provavelmente toda namorada que eu arranjar eu vou acabar traindo, mentindo, destruindo.
Uma das vantagens de se estar namorando nesse mundo é o comprometimento, a alegria de dar ao invés de receber, a dádiva de transformar um beijo numa declaração de amor, o poder celestial que esse comprometimento nos dá, nos transforma em seres luminosos, em babacas felizes, em idiotas alegres. Um namoro bom tem que ter carinho, atenção, cuidado, apego, confiança, zelo, respeito e consideração. Um namoro é um casamento, sem o inconveniente de morar junto. Um compromisso.
Pressuponho que uma vida feliz pra mim seria combinar o melhor das duas situações: a liberdade e o amor. Infelizmente, são incompatíveis, impossíveis de coexistir, água e óleo.
Não, não a liberdade de sacanear o outro, ou a outra. A simples liberdade de guardar os pensamentos pra si, de agir por conta própria. O amor requer a presença, a posse, é imediatista, requer prestações de contas, exige olho no olho.
Mas que é bom namorar isso é. O início do namoro é a melhor época, o casal ainda não se conhece, vai se descobrindo, com bom humor, com vontade, sem imposições, sem atitudes caóticas. Depois é que vem a merda.
Eu sou um péssimo namorado, sempre fui, não aconselho nenhuma gostosa a querer me namorar. Sou um filha da puta sem vergonha, sem respeito ou consideração. Sou um machista traíra, um inconsequente, mentiroso contumaz, eloquente na hora do flagra, não sei ouvir a verdade, odeio ouvir a verdade, fico puto, mando tomar no cu, pra puta que pariu, pra puta que te pra porra, etecetera, ad eternum, ad seculorum, maktub e o caralho a quatro.
Mas tem uma coisa que eu sei ser bem: amigo. Eu sou amigo leal. Comigo a amizade é elevada a um outro nível. Não decoro data de aniversário, não gosto de papear ao telefone (atendo com a clara intenção de desligar), não tenho saco pra frescura, bichice ou idiotice. Mas quando eu sou amigo, eu sirvo ao amigo. Eu tou presente quando precisar, sem limite de horas, local ou situações. Tá na merda? Me chama. Tá feliz pra caralho? Me chama. Tá precisando de grana? Me chama (se eu tiver eu arrumo, se não tiver, procuro alguém que tenha e que possa emprestar), tá querendo desabafar? Me chama. Tá querendo enfiar a porrada em alguém? Me chama. Pegou um par de chifres? Me chama. Comeu uma gostosa e matou todo mundo de inveja? Me chama. Tá no prego com o carro? Me chama. Furou o pneu e não tem estepe? Me chama. Tá a fim de jogar sinuca? Me chama.
Me chama e eu vou. Eu sou do tipo de amigo a quem você pergunta: “vamo?” e eu respondo: “vamo”, sem perguntar: “pra onde?”.
Só não me chame pra falar mal dos outros sem razão, pra sacanear alguma pessoa inocente, pra fuleirar sem motivo. Pra isso eu não vou não.
Pra namorar eu não presto. Mas presto pra ser amigo. Eu sou tão bom amigo que só tenho dois amigos verdadeiros na minha vida.