Monday July 24 2006

Fairy tale

Em um conto de fadas, eu visualizo os caixões. Sim, os caixões. Estranho começar um conto de fadas dessa maneira? Não, estranho seria finalizar desse jeito. O começo pode tudo, o começo é o ground zero, é o ponto em que tudo é possível. Se eu quiser que meu conto de fadas tenha chuva de facas e merda, ele terá. Se eu quiser que a Ashlyn Gere me faça um fellatio, ela fará. Na vida real tudo é limitado, no meu conto de fadas o tudo é infinito e o nada não existe. Tudo é superlativo e sobrenatural.

Em um conto de fadas, eu visualizo os caixões. Sim, os caixões. Alinhados, aparelhados, exalando orgulho, ranço e gases, os caixões esperam. Esperam o momento em que serão confinados a sete palmos, momento em que seus orgulhosos ocupantes irão comer capim pela raiz. Momento em que deixarão este mundo de merda e se tornarão recheio de intestino de vermes. Grande mudança, não? Tudo muda e os defuntos não perceberam. Não adivinharam que o mundo é roliço e dá voltas. Não esperavam tal golpe do destino. Se achavam Deus. Deuses.

O primeiro ocupante tinha história pra contar. Por apelido a infâmia lhe pegou. Não, ele não emprenhava as moças interioranas. No fundo dos rios do Amazonas ele tem história pra contar. Papéis já apagados lhe condenam as entranhas, urnas apodrecidas delatam seus defeitos. O boto. Sempre ele, sempre em primeiro.

O segundo gostava de usar tanguinhas. Bebia, cheirava e dava a bunda. Sim, a maioria dos políticos brasileiros faz isso, mas esse era diferente. Se o turco foi preso, esse nunca deu a cara a tapa. Se já foi investigado, comprou o silêncio dos incorruptíveis, comprou a alma dos ignorantes. Esse quase foi-se mais cedo, num acidente de carro. Um amigo de um amigo meu socorreu o moçoila e seu motorista, ambos trêbados, cocainados, laricados e despidos. Minto. Vestidos. Com tanguinhas. Puta desserviço à humanidade prestou esse amigo do meu amigo. Mas tudo na vida é perfeito. O mundo é roliço e numa dessas voltas, ele foi-se. Desta vez sem delongas ou socorro. Foi-se pras picas. Literalmente.

O terceiro era novato no mundo dos grandes. Bonitão, quando novo gostava de dar cavalo de pau na rua pra menino ver. Tinha um problema de torcicolo televisivo. O primeiro a falir um Estado, somente pra encher o próprio bolso. Patrocinava os jornais locais também, até que a ganância lhe subiu às têmporas e parou de depositar dólares no exterior pras dondocas jornalísticas. Foi o começo do fim. Vítima de ataques diários, segundo ele, todos infundados, até mesmo porque merda não afunda, conseguiu o óbvio. Atrair a pena das multidões. O que não conseguiu foi a remissão de seus pecados. Num mundo de merda, caiu vítima da própria piroca. A mulher, acostumada à vida boa, soube de seus casinhos. Na primeira, a secretária pegou as contas. Na segunda a diretora pegou as contas. Na terceira, a piroca pegou as contas. O homem que não pensava com a cabeça de cima perdeu a de baixo e não soube viver sem ela. Morreu de desgosto. Finalmente.

Em um conto de fadas eu visualizo os caixões. Estranho? Estranho é um mundo em que os bons morrem cedo, morrem de câncer, morrem de diabetes, morrem de ataques cardíacos fulminantes. Estranho é um mundo que revoga a seus ocupantes mais merecedores uma vaga a sete palmos abaixo, um mundo que premia os meliantes, que acoberta suas torpes aleivosias, que paga seu sangue com ira e vinho, orgias e tóxicos, ao mesmo tempo que fustiga seus habitantes mais humildes, como minha avó. Ou mesmo dois dos mais ilustres artistas, como o Cortez e o Guarnieri, que se foram ao saco por esses dias.

Se tudo isso tem nome, só posso pensar em um. Injustiça. Cósmica.

1 Comment »

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  1. Final de semana difícil, né Nego? Que tudo se acalme por aí. O beijo pra ti.

    Comment by Saia Plissada — Monday July 24 2006 @ 17:25 pm

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