Thursday May 4 2006

Retrato de idos inglórios

Em todo lugar que ando, percebo a tristeza alheia. Basta eu ouvir, melhor, basta eu fitar um par de olhos pra saber que algo está errado. Tenho uma percepção aguçada pra este tipo de observação, um alô ao telefone e eu já sei que do outro lado a merda bateu no ventilador. Uma espiada com rabo do olho e eu já saquei a depressão que assola o cidadão. É uma característica que já me rendeu muitos olhares de admiração e palavras elogiosas, confesso.

Mas não há glória em notar o ferimento e não saber como curá-lo.

Um ponto a menos na minha cachola é a memória. Não, não me pergunte o que eu comi ontem no café da manhã, porque eu não tomo café da manhã. A memória me falha quando preciso dela, quando necessito uma informação que me dê a dianteira numa discussão, que me valha de escudo numa briga afoita, que me traga orgulho no peito aberto. Mas não. Eu ouço, apanho, seco e não tenho o poder de lembrar. Talvez não exista nada pra lembrar.

Pensando bem, não existe glória em lugar algum. Existem o medo, a vergonha e a alienação. A glória ficou para Deus. A mim, restam a sujeira no caminho, o cheiro de morte e as utopias.

2 Comments »

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  1. eu sou sempre a pessoa triste, que não vê a tristeza dos outros por estar atolada demais na minha.

    memória? que é isso?

    Comment by mlee. pastèque — Thursday May 4 2006 @ 12:29 pm

  2. Bah! Virou filósofo!!!

    Comment by Blogue da Magui — Friday May 5 2006 @ 23:56 pm

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