Sol Cantor
Essa eu confesso que gosto muito. Não sei porque, mas escrevi com sinceridade estas palavras. Tudo bem, você não gostou, mas o que é a liberdade de expressão senão o meu escrever contra o seu não ler?
Se uma viagem em direção ao inexplorado me torna conhecido,
Se uma jornada rumo ao desconhecido faz com que eu me conheça,
Ao contrário do que imagino, não sou apenas um ser perdido.
E, ao rememorar o passado, peço apenas que o futuro me esqueça.
Quando eu crescer, serei uma criatura de saber eterno.
Mas, ao morrer imagino as trevas em brasas no inferno.
Apesar da dor de deixar o que prezo e o que é terno,
Não deixarei sufocar-me o sofrimento interno.
Sinto que um dia de felicidade ainda virá.
No entanto, não entendo a infelicidade presente.
Choque e fúria não agora te farão chorar.
Me tornei um lodo ambulante no franzido semblante.
Metamorfoses mentais eu vivo. Mas não vivo.
Possuo o que tenho ou tenho o que não possuo?
Seria a chave da porta um clandestino crivo?
Ou ainda dentro do armário, refúgio?
Vôo livre do espírito é a queda livre da existência.
Mas as restrições não me tornam um novo Messias.
Mais fácil cair do cavalo ou criar Jebedias,
Que me livrar do Nada ou da minha demência.
Naufragando em ritmo acelerado e inevitável,
Eu engulo os sapos do cotidiano.
O vômito do espírito alquebra o equilíbrio inestimável,
E torna o Nada em Tudo e o são em insano.
Melancolias breves e conflitantes, mas não sinto auto piedade.
Não meço a profundeza do poço pela quantidade de estrelas que vejo.
E, ao invés de subir, caio, mas sinto sempre a saudade,
Do tempo que não vivi e do gosto do cigarro no beijo.
Já me perdi em supermercados e em beiras de rios.
Já quis continuar perdido e nunca ser encontrado.
Pensamentos convergem para o inverso da essência dos brios.
Covardia não é retirar-se, mas não apresentar-se ao local combinado.
E agora que não faço mais sentido.
Vou dormir o sono dos condenados.
Viver a existência dos mortos e ofendidos,
Espremer o abcesso do joelho esburacado.
Não obstante a ignorância, não distante está a sabedoria.
Tocar uma música ou soprar uma sopa quente.
Reverbero o grito silencioso da carne fria.
E entorto as pontas do tridente.
Fora a inexistência e saia de mim a voz.
Expurgo meus pecados e absolvo outrem.
Me parto em mil pedaços nos trilhos do trem.
Mas não condeno a mim nem a vós.
Osimar Medeiros 29/11/2002
