Sunday August 7 2005

A magia do ego

Uns versinhos meus pra variar.

       Holocausto Individual I - da beira do abismo profundo

A imortalidade espreita o espírito atormentado e alquebrado,
Os ventos anunciam a vinda de uma tempestade imortal,
Razões não há, para continuar seguindo a estrada do abandono,
Os passos do malfeitor são cercados pelas iniqüidades e atrocidades.

Vontade não falta para exterminar a praga que é a existência,
Calado como a madrugada de um Domingo para uma Segunda-feira infernal,
Procuro a porta que, fatalmente me deixará à mercê dos vermes,
Deixo apenas sombras e lembranças atrozes, malditas e eternas.

Na esquina da manhã seguinte ao extermínio,
Salve suas orações para os que, tais como moribundos com fé imortal,
Ainda acham esperanças na noite clara do leprosário do espírito,
E arrependem-se como condenados andando à beira do colapso mental.

A mim avizinham-se candelabros negros no fim do túnel amargo da vida,
Que, tais como demônios fugidos do inferno, atormentam-me a insólita viagem,
Presságios se mostram ser, quando da execução da roleta russa vazia,
Procurando resgatar do âmago da alma, um motivo para continuar a sofrer.

Abatimentos sôfregos e soluçantes sufocam o canal apodrecido da respiração,
Procurando remoer recordações inexistentes de ambíguas vitórias destronadas,
Ao mesmo tempo em que aprofundam a miséria infinita, suja e melancólica,
Repentes de satisfação são suplantados por amarguras intermináveis.

Surpresas reservam-se até aos mais preparados e, certamente concentrados,
Pois, se dissecarmos um animal, ao vermos suas entranhas flácidas e cinzentas,
Refugiamos-nos na explicação racional de que ele nada sofre ou agoniza,
Qual não foi minha surpresa, ao ver-me pálido, descobrindo que morto já estava!

                                                                                          Osimar  Medeiros  21/09/99

Continua…..

               Holocausto Individual II - do tombo ao abandono real

Se não soubesse que já estava morto, teria lamentado a perda de minha vida,
Não há lugar em que eu possa me esconder de minha mente doentia,
Pois, como um verme sempre cavando e sobrevivendo da terra imunda,
Eu não consigo me livrar do terror noturno, nem da dor imortalizada.

Os amores, como chuvas de verão, são fortes e temporariamente belos,
Mas, ao passar a garoa, seguem-se devaneios e desejos caóticos,
Eu não sou o que aparento ser, nem pretendo ser o que não sou,
Eu atingi aquele ponto em que nada tem sentido, senão o sentido que tem.

Não há vontade no mundo que não se dobre perante o abandono e a angústia,
Como cachorros sarnentos, procuram carinho e recebem chutes e gritos surdos,
Mas ai daqueles que lhes tomam a defesa, pois serão insultados como ladrões,
Retrocedendo o espírito até serem lançados à loucura indômita e ruminada.

A vingança desce o abismo, desvairada em sua neurose invertebrada,
Procurando o alvo de sua premissa, que lhe fez tanto mal e vaga solto,
Atingindo inocentes em seu caminho, nem por isso parando para socorrê-los,
Tão louca está, em sua culpa interna e externamente viva e visível.

É perfeitamente possível confundir esperteza com desonestidade conflitante,
Difícil é saber julgar (e por isso julgar não compete a nós) a razão oculta,
Que leva alguém a destruir sua já tão destruída existência mortificada,
Saindo deste mundo agonizante e mórbido, para entrar no reino da escuridão.

A veracidade da mentira está nos olhos cegos dos que a procuram,
E não faço eu por onde ser julgado como benfeitor e benevolente,
Tanto que, ao ser declarado inocente, procuro provar minha culpa,
Amortecendo a ambigüidade altruísta e fútil de minhas ações indizíveis.

                                                                                                Osimar Medeiros  22/09/99

Continua…..

                      Holocausto Individual III - da solidão à morte misericordiosa

A duplicidade de meus pensamentos vagos confronta-se com a unidade do meu ser,
Preparado estou, para o que quer que anuncie-se à minha vista turva e exausta,
Nada do que angustiadamente feito por mim foi, será lucidamente repetido,
Embora parte seja da alma, a carne sangrenta jamais será parte de sua essência.

Castigos não adiantam, se a alma arrependida falsamente está,
Mesmo que a dor total seja destruidora, a verdade mantém-se oculta,
Minhas orações aos céus não chegam, pois endereçadas estão ao vazio,
Nem que da rocha saíssem ossos, eu não renunciaria ao abandono real.

A astúcia do marginalizado compara-se à realeza da alta autoridade,
A veemência da flama glacialmente vaporizada tem seu significado visível,
Tal monstruosidade híbrida da carne e do espírito condena o infinito,
O futuro de meu presente depende apenas do passado do meu relapso tempo.

Toda a violenta passividade do meu coração é fruto da momentânea falta de razão,
Que se desprende de mim, como a raiva que dá nome ao massacre mental,
Realizando-se na busca do inexpugnável castelo invisível do fundo do meu rancor,
Tendo em seu âmago, a inodora fragrância prateada do cemitério subterrâneo.

Lagrimas de sangue são originadas de imagens mortas e rudemente apodrecidas
Vigilante e alerta estou, em minha segurança organizadamente desfigurada,
Todos ouvirão a trombeta apoteótica, como num fim espetacularmente e claramente mau.
E seguirão a marcha triunfal do réquiem inexistente e claramente mau.

Quão fundo é o abismo do meu coração naufragado num mar de espinhos?
Só eu sei e, como uma locomotiva desgovernada, levo o segredo à tumba,
Segredo esse, que diz respeito a mim apenas, a ao ódio contido em minha ira,
E a fatalidade me atinge, desnorteando-me e, finalmente terminando meu julgamento.

                                                                                     Osimar Medeiros        23/09/99

Catarse

Tive um papo muito bom hoje com a linda correspondente do Porra! em New York, a Andréa. Ela me disse uma coisa que me fez parar pra refletir: “ser feliz dá trabalho, mas funciona.” Tem toda razão.

Mas no momento tou em rota de colisão comigo mesmo. Talvez esse pau que deu no blogdrive tenha vindo em boa hora, talvez esses dois dias que eu fiquei sem fumar tenham me feito bem, não sei, não vou pensar nisso agora, não tou com cabeça pra pensar. Tou com cabeça pra bater apenas. Neste momento ou vai ou racha, como se diz.

Sinto dores, sinto agonia, melancolia, estresse, tristeza. Tudo isso em cima de mim, sem me dar trégua pra respirar. Mas é assim que eu tou aprendendo. Na porrada, na marra, no couro. Assim é viver. É sofrer, mas aprender.

Desculpe aí você que veio aqui ler coisas interessantes e acaba lendo merda. Tou num processo catártico, numa fase de regurgitação de valores, de ruminação de idéias, de reflexão de pensamentos. Ando zen, ando buda, ando sun tzu.

Ultimamente tenho tido sonhos etéreos. Não, não andei cheirando éter. Mas meus sonhos não me obedecem e correm aos passos largos, sem se importar com o peso que carregam. Tem sido bom dormir fora de casa esses dias, tem sido bom dormir de pijama, em redes que não ficam paradas, sob o vento impiedoso das palhetas dos ventiladores barulhentos. Redescobri o prazer de dormir ouvindo aquele zuuumm do ventilador, que coisa boa.

É isso. Talvez eu fique uns dias sem postar, talvez eu escreva todo dia. Não quero parar, levo uma vida corrida e nessa corrida não posso dar vacilo.

Pra quem me lê e vem aqui, abraços. Pra quem não vem ou nunca veio, não perdeu nada.