Uns versinhos meus pra variar.
Holocausto Individual I - da beira do abismo profundo
A imortalidade espreita o espírito atormentado e alquebrado,
Os ventos anunciam a vinda de uma tempestade imortal,
Razões não há, para continuar seguindo a estrada do abandono,
Os passos do malfeitor são cercados pelas iniqüidades e atrocidades.
Vontade não falta para exterminar a praga que é a existência,
Calado como a madrugada de um Domingo para uma Segunda-feira infernal,
Procuro a porta que, fatalmente me deixará à mercê dos vermes,
Deixo apenas sombras e lembranças atrozes, malditas e eternas.
Na esquina da manhã seguinte ao extermínio,
Salve suas orações para os que, tais como moribundos com fé imortal,
Ainda acham esperanças na noite clara do leprosário do espírito,
E arrependem-se como condenados andando à beira do colapso mental.
A mim avizinham-se candelabros negros no fim do túnel amargo da vida,
Que, tais como demônios fugidos do inferno, atormentam-me a insólita viagem,
Presságios se mostram ser, quando da execução da roleta russa vazia,
Procurando resgatar do âmago da alma, um motivo para continuar a sofrer.
Abatimentos sôfregos e soluçantes sufocam o canal apodrecido da respiração,
Procurando remoer recordações inexistentes de ambíguas vitórias destronadas,
Ao mesmo tempo em que aprofundam a miséria infinita, suja e melancólica,
Repentes de satisfação são suplantados por amarguras intermináveis.
Surpresas reservam-se até aos mais preparados e, certamente concentrados,
Pois, se dissecarmos um animal, ao vermos suas entranhas flácidas e cinzentas,
Refugiamos-nos na explicação racional de que ele nada sofre ou agoniza,
Qual não foi minha surpresa, ao ver-me pálido, descobrindo que morto já estava!
Osimar Medeiros 21/09/99
Continua…..
Holocausto Individual II - do tombo ao abandono real
Se não soubesse que já estava morto, teria lamentado a perda de minha vida,
Não há lugar em que eu possa me esconder de minha mente doentia,
Pois, como um verme sempre cavando e sobrevivendo da terra imunda,
Eu não consigo me livrar do terror noturno, nem da dor imortalizada.
Os amores, como chuvas de verão, são fortes e temporariamente belos,
Mas, ao passar a garoa, seguem-se devaneios e desejos caóticos,
Eu não sou o que aparento ser, nem pretendo ser o que não sou,
Eu atingi aquele ponto em que nada tem sentido, senão o sentido que tem.
Não há vontade no mundo que não se dobre perante o abandono e a angústia,
Como cachorros sarnentos, procuram carinho e recebem chutes e gritos surdos,
Mas ai daqueles que lhes tomam a defesa, pois serão insultados como ladrões,
Retrocedendo o espírito até serem lançados à loucura indômita e ruminada.
A vingança desce o abismo, desvairada em sua neurose invertebrada,
Procurando o alvo de sua premissa, que lhe fez tanto mal e vaga solto,
Atingindo inocentes em seu caminho, nem por isso parando para socorrê-los,
Tão louca está, em sua culpa interna e externamente viva e visível.
É perfeitamente possível confundir esperteza com desonestidade conflitante,
Difícil é saber julgar (e por isso julgar não compete a nós) a razão oculta,
Que leva alguém a destruir sua já tão destruída existência mortificada,
Saindo deste mundo agonizante e mórbido, para entrar no reino da escuridão.
A veracidade da mentira está nos olhos cegos dos que a procuram,
E não faço eu por onde ser julgado como benfeitor e benevolente,
Tanto que, ao ser declarado inocente, procuro provar minha culpa,
Amortecendo a ambigüidade altruísta e fútil de minhas ações indizíveis.
Osimar Medeiros 22/09/99
Continua…..
Holocausto Individual III - da solidão à morte misericordiosa
A duplicidade de meus pensamentos vagos confronta-se com a unidade do meu ser,
Preparado estou, para o que quer que anuncie-se à minha vista turva e exausta,
Nada do que angustiadamente feito por mim foi, será lucidamente repetido,
Embora parte seja da alma, a carne sangrenta jamais será parte de sua essência.
Castigos não adiantam, se a alma arrependida falsamente está,
Mesmo que a dor total seja destruidora, a verdade mantém-se oculta,
Minhas orações aos céus não chegam, pois endereçadas estão ao vazio,
Nem que da rocha saíssem ossos, eu não renunciaria ao abandono real.
A astúcia do marginalizado compara-se à realeza da alta autoridade,
A veemência da flama glacialmente vaporizada tem seu significado visível,
Tal monstruosidade híbrida da carne e do espírito condena o infinito,
O futuro de meu presente depende apenas do passado do meu relapso tempo.
Toda a violenta passividade do meu coração é fruto da momentânea falta de razão,
Que se desprende de mim, como a raiva que dá nome ao massacre mental,
Realizando-se na busca do inexpugnável castelo invisível do fundo do meu rancor,
Tendo em seu âmago, a inodora fragrância prateada do cemitério subterrâneo.
Lagrimas de sangue são originadas de imagens mortas e rudemente apodrecidas
Vigilante e alerta estou, em minha segurança organizadamente desfigurada,
Todos ouvirão a trombeta apoteótica, como num fim espetacularmente e claramente mau.
E seguirão a marcha triunfal do réquiem inexistente e claramente mau.
Quão fundo é o abismo do meu coração naufragado num mar de espinhos?
Só eu sei e, como uma locomotiva desgovernada, levo o segredo à tumba,
Segredo esse, que diz respeito a mim apenas, a ao ódio contido em minha ira,
E a fatalidade me atinge, desnorteando-me e, finalmente terminando meu julgamento.
Osimar Medeiros 23/09/99